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Dia de 🌟

O Torradas e o Salvador tinham andado a meter nojo na semana anterior com a rota dos kms verticais, subiram o km vertical da Lousã, o de Loriga e o do Alvoco e aquelas fotos m'enervavam 😝

Comecei logo a congeminar um plano... o fim de semana seguinte estávamos sem crianças, e era a altura perfeita para nos irmos pregar um último grande empeno antes de Val D'Aran.

Expliquei os meus planos ao João... «então é assim, tu vais fazer o que eles fizeram, sobes de Loriga até à Torre, depois desces ao Alvoco, voltas a subir à Torre e a descer para Loriga, e eu, para não te atrasar, e porque não tenho pretensão de deixar as pernas na serra, saio a correr de Loriga em direção ao Alvoco por estrada, subo do Alvoco à Torre e depois desço para Loriga. Lá pelo meio cruzamo-nos e com sorte tu ainda me apanhas na descida!»

Criei logo um gpx com a minha rota para carregar para o Garmin e fiz também upload para o ViewRanger.

Importa aqui dizer que eu nunca tinha feito nenhum dos percursos... nem uma vez... mas achei que tudo bem!

Na quinta-feira, dizem que Lisboa vai estar fechada no fim-de-semana, "queres ver que já nos lixaram os planos?" mas lá nos organizámos para sair de casa na sexta à hora de almoço para regressar apenas na 2.ª feira de manhã.... tínhamos (muitas) caixas para levar para cima e uns determinados kms verticais para meter nas pernas.... para além desse contratempo, o São Pedro tinha-se cansado do bom tempo e decidiu brindar-nos com chuvas e trovoadas! Já tínhamos chegado a Gouveia e o Lidl ficou às escuras momentaneamente por causa da trovoada, "bem, queres ver que já nos lixaram os planos? Take 2"

Sábado decidimos não acordar demasiado cedo, avaliar como estava o tempo, perceber como estavam as vistas da serra através da janela e se estivesse ok avançaríamos. Pois que avançámos!

Chegámos a Loriga e até estava solito, mas a modos que se notava o meu nervosismo 👀

Lá nos despedimos e cada um foi à sua vidinha... eu abordei a subida inicial por estrada, calmamente, tirando uma foto aqui e ali:
Praia Fluvial de Loriga

Loriga vista da estrada para o Alvoco
Na verdade, a subida era bastante gradual e fazia-se muito bem, quando chego lá acima, contorno o monte para o outro lado e começo a descer para o Alvoco. Tentei ser cautelosa, ir num ritmo confortável sem me entusiasmar em demasia e deixar as pernas em papa logo no início. 

Supostamente o track deveria estar a funcionar no relógio, só que não, tanto que me escapou a 1.ª entrada que devia ter apanhado para o Alvoco. Como já me tinha acontecido o mesmo na Arada, desconfio que quando o Garmin inicia o LiveTrack desliga o modo de seguimento de percurso, pelo que tive de voltar a selecionar o track no relógio para ficar a funcionar.

Desci até lá abaixo, aproveitei as casas de banho públicas e mais tarde agradeci não ter ido ao Café Brito - o João queixou-se que a D. Maria o ignorou com distinção. Comecei a subir, depois de passar o local da base de vida do EstrelAçor passo umas pessoas dali da terra, e aproveito para fazer chinchada numa cerejeira mesmo à beira do caminho, só tirei uma cereja, era boa que se fartava! O grupinho meteu-se comigo, perguntaram se ia até à Torre e se ia sozinha, brincaram se eu não tinha medo dos lobos e eu disse que tinha os bastões para lhes dar uma trolitada na cabeça, se necessário fosse! 

Raios, mas já não bastava eu ir sozinha com os meus demónios, a fazer um caminho que nunca tinha feito, a seguir um track, com nevoeiro lá em cima e com risco de o tempo mudar, ainda me tinham de falar em lobos???? Decidi que não haviam lobos na serra, pelo menos não de dia, pelo menos não no meu caminho, e na verdade, até à Torre, o único ser vivo que vi para além de passarada e bicheza de chão, foi o meu Johnny quando nos cruzámos algures no trilho.
Segui o trilho olhando umas vezes para o relógio, outras para as marcas de caminho pedestre que ia vendo, e mesmo avisada, consegui enganar-me num sítio muito normal de enganos, já que existem marcas tanto para o lado esquerdo como para o lado direito, e o normal é seguir para o lado direito... atravessei o ribeiro e só achei que alguma coisa estava mal quando o caminho começa a rodar para a direita como que a querer regressar ao Alvoco. Lá olhei para o relógio e percebi que estava fora de rota, lá voltei, caramba, ali até tinha corrido e tudo 😝

Um pouco mais tarde chego a uma zona onde aparecem estas placas super esclarecedoras:

Hmmmm, e Torre nada? Só Alvoco, só Alvoco... percebo depois em backoffice que é um ponto de junção dos kms verticais (há 2 alternativas de começo ou mais, eu sei lá sei lá).

A partir daqui o percurso começa a ser cada vez mais interessante, cada vez mais empinado, e tendo em conta o tempo que se fazia, mais nublado. Se por aqui ainda se via qualquer coisa...
...mais à frente não se podia dizer o mesmo...
desisti de tirar fotos. Não se via nada, eu estava mesmo com dificuldade em ver as mariolas e as marcas da rota, em certos momentos sentia-me meio perdida, mas mantive sempre a cabeça fria (literalmente). O tempo oscilava, ora estava agradável ora a neblina trazia um orvalho que em certa altura me obrigou a vestir o impermeável para não deixar a minha temperatura corporal descer.

Lá fui seguindo, trepando pedras, subindo a passo, afastando o mato. Só tive pena que aquelas condições meteorológicas não me deixassem ver as vistas e perceber o caminho que já tinha percorrido e o que ainda me faltava. Este vídeo do João é bastante esclarecedor:

Lá chego ao planalto, à zona das pedras verdes, à grande mariola que nem fotografei, habitualmente a Torre já é visível nesse ponto, mas não hoje!

Só faltava um danoninho e a Torre estava conquistada!

Lá fui atestar e tentei esperar pelo regresso do João. Ele liga-me diz-me que só faltam 100md+, só que não... tinha feito mal as contas, a minha temperatura corporal começa a baixar demasiado e dou por mim a tremer e a ficar com as mãos brancas. Tento ligar-lhe e nada. Digo aos senhores da lojinha que simpaticamente me acolheram e conversaram animadamente comigo que deixava a meia sandes que não comi para o João que haveria entretanto de chegar, lá ele me liga e lhe consigo dizer que tenho de seguir caminho. 

Fecho o impermeável, meto a máscara, calço as luvas que trazia na mochila guardadas num saquinho e meto-me a caminho a tremelicar por todos os lados. O track manda-me para a parte de trás, saio da estrada e começo a entrar pela terra, mas não havia nenhum caminho nem marcações. Mantenho-me a olhar para o relógio, mas começo a desviar-me. Resolvo usar finalmente o ViewRanger e consigo, meio às apalpadelas, começar a andar em cima do track, mesmo sem haver caminho. Ainda não aqueci e há momentos em que considero se deveria voltar para trás.

De repente a descansar do meu lado direito, está uma manada de bois deitados no chão. Um levanta a cabeça e olha-me de soslaio. Só espero que ele não me considere interessante o suficiente para se levantar e que não hajam cães pastores a guardá-los. Não havia. Lá segui e dei com um trilho. De repente entro numa zona que me deixa de boca aberta, estou a chegar junto à Lagoa do Covão do Quelhas.

A partir daqui o caminho fica marcado com mariolas e mais tarde quando cruza o PR5 também tem as marcas pintadas. Incrível o caminho a partir daqui, lindo lindo! 
Venho feliz da vida, apesar do tempo farrusco, encontro finalmente um casal no trilho na descida para o Covão do Meio, ainda não me tinha cruzado com mais ninguém. Desço com a calma de uma turista a observar e armada em paparazzi.


Ainda a descer umas escadas em direção à parede da barragem lá oiço uns passos, olho para cima e lá vem ele, the one and only...
Momento registado para a posteridade, com sacos de plástico à frente da câmara e afins...

A partir daqui fomos juntos até ao fim, eu ainda consegui escorregar e mandar um cacetadão com a parte superior da tíbia num calhau e ficar logo com um hematoma, que foi a pulsar o resto do tempo, o que me fez demorar mais tempo uma vez que receava escorregar de novo.

Já restava pouco depois disto, chegámos à varanda que nos permite ver o vale da garganta de Loriga que é lindíssimo.

Após transpormos a parte mais técnica da descida, chegamos a estradão e vamos rolando até Loriga. Terminamos onde começamos, em frente ao Vicente, onde vamos fazer o recovery e ver o que resta do jogo de Portugal - Alemanha. Que delícia 😋

Se tiverem curiosidade no percurso que fiz:

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